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O Súdito (Banzai, Massateru!), de Jorge Okubaro

O Súdito (Banzai, Massateru!), de Jorge Okubaro

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Disponibilidade: Em Estoque.

R$69,00
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Descrição Rápida

Autor Jorge J. Okubaro
Páginas 536
ISBN 8587556797
Projeto gráfico Antonio Kehl
Formato 16 x 23 cm
Acabamento Brochura





Veja aqui o que já saiu na imprensa
 

Indicado ao Prêmio Jabuti 2007 na categoria Reportagem

O Súdito é uma saga espetacular da imigração japonesa no Brasil, baseada na história de Massateru Hokubaru, pai do autor, que deixou o Japão aos 13 anos, em 1918, e viveu no Brasil até morrer, em 1966. Ao contar sua história, o jornalista Jorge J. Okubaro procura responder à pergunta que todo imigrante, em algum momento de sua vida no Brasil, se fez: valeu a pena tanto sacrifício?

Veja, a seguir, trecho do livro, no qual o autor descreve a travessia do Japão ao Brasil no Wakasa Maru:

O Wakasa Maru era, como outras embarcações que faziam esse tipo de trabalho na época, um desses velhos cargueiros que, quando partiam do Brasil rumo ao Japão, tinham seus porões repletos de café em grão e, na volta, para não perder a viagem, transportavam emigrantes. Suas condições eram péssimas. Não eram mais que navios ultrapassados, prestes a ser abandonados como sucata, com capacidade de carga de cerca de 6 mil toneladas brutas, sem leitos ou acomodações adequadas, mas que eram abarrotados de emigrantes em seus porões. Era impossível não sentir, durante toda a viagem de volta, o cheiro da carga que ali estivera.

Mas o cheiro talvez nem fosse o pior. Um adulto dispunha de uma área de cerca de 90 cm por 180 cm, o suficiente apenas para colocar a esteira onde dormiria e passaria toda a viagem, que, em situação normal, durava quase dois meses. Criança ainda, mal completara treze anos, a Massateru caberia a metade desse espaço. Dormir era possível, mas ao acordar, por ser magro, doíam-lhe os ossos dos quadris que se projetavam para os lados, os ombros, os braços. Esticar-se, num espaço tão reduzido, era impossível sem causar confusão, pois implicava empurrar o vizinho, que o xingaria ou lhe devolveria o empurrão. Mas Massateru não reclamava. Podia ser pior, convenceu-se, pois crianças mais jovens viajavam no colo da mãe. Nem uma nem outra podiam sentir-se em situação confortável. Dormiam todos, homens e mulheres, adultos e crianças, sobre esteiras estendidas no chão do cargueiro, em condições promíscuas.

(...)

Também da comida Massateru não podia reclamar. Era a típica japonesa. Diariamente eram servidas três refeições. A primeira, às sete horas da manhã, era constituída de umeboshi, ameixa em conserva, com sabor misto de azedo e salgado, temperada com uma folha de sabor acentuado chamada shiso; takuan, rabanete em conserva; miso shiru, sopa de missô; e um acompanhamento, como picles de nabo, peixe seco, um cozido de soja e alguma hortaliça. A segunda, ao meio-dia, tinha takuan; nira, uma folha de sabor forte, parecido com o da cebolinha; um cozido de carne com legume ou verdura (nabo, batatinha, cebola ou repolho). Às vezes era servido renkon, raiz seca de lótus, ou sua variedade aquática, chamada hoshirenkon. A terceira e última refeição do dia, servida a partir das quatro horas da tarde, era a mais substanciosa e variada. Além das conservas, basicamente o mesmo takuan das refeições anteriores, havia peixe sob alguma forma – assado, em conserva ou como o kamaboko, uma pasta muito apreciada pelos japoneses. Também algum cozido era servido, como a raiz de lótus; toofu, uma espécie de queijo de soja; arroz; uma sopa; uma verdura, como repolho com goma, isto é, gergelim.

Já as instalações sanitárias do Wakasa Maru eram péssimas. Banho com água doce, só duas vezes por semana. E cada um só podia usar três baldes de água. As mulheres, por terem cabelos longos, tinham direito a dois baldes adicionais. Nos demais dias, podia-se tomar banho com água do mar, ligeiramente aquecida. Preparar-se para o banho consistia em um ritual que assustava alguém que não fosse japonês. Eram apenas quatro banheiros, dois para homens, dois para mulheres. Não havia espaço para a troca de roupa. Para adiantar o expediente e reduzir o tempo de espera dos que estavam na fila, os emigrantes se despiam no convés e, após o banho, era lá que se enxugavam e se vestiam. Os homens não dispunham de sabão para se barbear. Usavam apenas água e navalha, que cada um trazia na bagagem pessoal. Para lavar a roupa, cada viajante tinha direito a quatro baldes de água por semana. A bagagem pessoal, por recomendação das autoridades japonesas, era a mais compacta possível. Era preciso limitar seu peso e volume, para que mais emigrantes pudessem ser transportados. De acordo com as instruções do governo japonês, ela deveria conter, entre outras peças, sapatos resistentes e baratos, semelhantes às botas militares; uma ou duas mudas de yukata, espécie de quimono para uso após o banho ou para dormir, mas com botões (o de Massateru era de estilo okinawano e, como o modelo original japonês, traspassado e amarrado com uma espécie de cinto), para evitar que se abrisse; andoo hakama (espécie de calças compridas), que deveria ser acompanhada de meias longas, para não mostrar as pernas; chinelos japoneses de madeira, conhecidos como itazoori; cobertor; algumas toalhas; bacia; recipientes para comida; agulha e linha; faca ou canivete; navalha, para os homens; espelho; algumas folhas de papel para anotações, outras para cartas, e envelopes; remédios para os que tinham necessidade. Nada de objetos de luxo ou alimentos que pudessem ser considerados itens comercializáveis, nem armas.

Havia consultório médico. Mas, por causa da falta de higiene, da má ventilação e do excesso de pessoas, o ambiente no navio era propício à propagação de moléstias contagiosas, e não havia medicação para combatê-las com eficácia.

Noomakuen. Massateru estudara quase oito anos com base em um currículo que procurava ser o mais moderno e eficaz possível. Era um currículo especialmente criado por especialistas que o império Meiji enviara alguns anos antes aos principais centros de cultura, conhecimento e ciência do mundo, como França, Alemanha, Inglaterra e Estados Unidos, para em pouco tempo fazer do Japão uma nação poderosa. Massateru recebera, por isso, um ensino denso. Mas, mesmo assim, não conhecia a palavra noomakuen. Descobriu-a, e acostumou-se a ouvi-la, vendo a seqüência de mortes durante a viagem. Era esse o nome em japonês da doença que surgiu de maneira devastadora a bordo do Wakasa Maru.

Como de outras coisas e sensações da aventura que vivera entre Kobe e Santos, também dessa palavra ele nunca mais se esqueceria. E tremeria cada vez que ouvisse alguém pronunciá-la. Tornara-se, para ele, sinônimo de morte em série, um mal incontrolável que não se contenta com poucas vítimas. Naquela época, não conseguiu entender direito que se tratava de uma forma particularmente maligna de infecção de uma membrana do cérebro. “É meningite cérebro-espinhal”, alguém com conhecimentos de medicina explicou para o seu grupo. Doença contagiosa e, dependendo da resistência do paciente, letal até mesmo quando combatida com a medicação adequada. Essas explicações não lhe esclareciam muita coisa. Até então, imaginava que só se morria de velhice, de acidente grave, como queda, ou assassinado, algo de que, felizmente, apenas ouvira falar. As pessoas deviam ter caído de algum lugar alto do navio, miseravelmente batido a cabeça, que infeccionara em algum ponto e, pouco tempo depois, provocara o óbito, imaginou, quando lhe deram as primeiras explicações sobre a meningite. Em pouco tempo, porém, compreendeu como funcionava o contágio.

Quando o primeiro passageiro morreu de meningite, houve grande agitação a bordo. Todos queriam saber as circunstâncias do caso, e muitos, como Massateru, não conseguiam entender como aquilo podia ter acontecido. Depois, correram para a borda do navio para assistir aos ritos fúnebres que se praticam em alto-mar. O navio se deteve temporariamente. As sirenes soaram. Depois de uma oração feita por alguém da tripulação ou por algum passageiro com formação religiosa, e acompanhada pelos demais passageiros, o corpo, envolto em pano branco, foi lançado ao mar. Afundou depressa, e depressa a viagem foi reiniciada. Quando morreu o segundo passageiro, a cena se repetiu, com igual emoção e a participação atenta dos passageiros.

Mas, à medida que crescia o número de óbitos, diminuíam a dor, o sentimento de solidariedade, o desejo de confortar os parentes e até mesmo a curiosidade, a principal força que impulsionava as crianças para essas cerimônias. “Estou cheio disso”, pensou Massateru, quando soube da quinta ou sexta morte. Deixou, então, de correr a cada notícia de morte. Não valia mais a pena se agitar. Em poucos dias, a doença já levara 53 dos que tinham embarcado em Kobe. Agora, a sensação era praticamente uma só entre os passageiros: de medo. E cada um se perguntava quando chegaria sua vez.

Era a pior epidemia de que se tinha notícia no processo de emigração. Quando, alguns dias depois, o Wakasa Maru aportou em Cingapura, as autoridades portuárias tiveram de agir com presteza e rigor. Examinaram cada um dos sobreviventes, desinfetaram o navio e impuseram uma quarentena que, para aquele menino, poderia ter sido muito divertida se ele pudesse ao menos descer para terra firme e, de maneira não programada, conhecer um mundo de que mal ouvira falar. Mas ao Wakasa Maru e a seus passageiros foi imposto um rigoroso isolamento. Ninguém podia sair do navio nem embarcar, com exceção dos funcionários da saúde pública local. E isso durou o que, para o menino, pareceu uma eternidade – e sobretudo uma inutilidade. O navio nem podia avançar na direção de seu destino, nem tinha autorização para regressar ao porto de onde partira. Simplesmente tinha de ficar parado ali, à espera de alguma decisão. Foi exasperante. Massateru não tinha o que fazer. Não tivera oportunidade de criar amizades e, pelas condições do navio, praticamente não podia sair do espaço que lhe fora reservado. Nem havia para onde ir, na verdade. Isso se arrastou por mais de um mês, de acordo com seus cálculos. Ou exatamente 24 dias, como registram os livros de entrada e saída de navios do porto de Cingapura. Foi o que atrasou a viagem, que em condições normais seria feita em pouco mais de cinqüenta dias.

Foi quase num clima de festa que, finalmente, o navio deixou Cingapura, bem cedo naquele dia. Quando o primeiro raio de sol matinal iluminou aquela parte do porão onde viajava, Massateru estranhou. O raio continuava vindo pelo lado esquerdo, de bombordo, como se dizia ali. Mas antes penetrava no navio quase no sentido longitudinal, de trás para a frente, da popa para a proa. Agora o atravessava quase transversalmente, de bombordo a estibordo, da esquerda para a direita. Por que o navio teria mudado tanto assim de rumo? Massateru não dispunha de informações precisas sobre a rota, nem de um mapa para acompanhar as etapas da viagem. Mesmo que tivesse tudo isso, talvez não conseguisse esclarecer sua dúvida.

Mas o que ocorria era relativamente simples. De Cingapura, o Wakasa Maru, que desde Yokohama até ali se mantivera constantemente na direção sudoeste, tomou o rumo sudeste, para poder contornar a grande ilha de Sumatra, que separa o sul da península da Malásia e Cingapura do Oceano Índico. Navegou em direção ao mar de Java e à ilha de Java. Já era noite quando os passageiros foram informados de que estavam cruzando a linha do Equador. Não houve comemoração, como costuma ocorrer a bordo quando se chega a esse ponto da viagem. Por causa de tantas e tão recentes mortes, o ambiente continuava pesado demais para celebrações ou comemorações.

Jorge J. Okubaro é jornalista. Depois de estudar durante alguns anos na Escola Politécnica da USP, optou pela carreira de jornalista e trabalhou em diversas publicações e também no Palácio dos Bandeirantes, sede do governo do estado de São Paulo. Desde 1989 é editorialista do Grupo Estado, que edita os jornais O Estado de S. Paulo e Jornal da Tarde.

 

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